Microfinanças: lucro versus combate a pobreza
Recentemente uma série de matérias circulou nos principais meios de comunicação impressa internacionais tratando de um assunto reconhecidamente controverso: a chamada comercialização das microfinanças.
A referida série de matérias tratava da discussão, nada amistosa, travada entre dois importantes atores do segmento microfinanceiro: o Grameen Bank, que opera em Bangladesh e Compartamos, que opera no México.
Compartamos é uma instituição financeira privada, tendo apresentado níveis de crescimento significativos em sua carteira de microfinanças nos últimos anos, se tornando uma das instituições financeiras mais rentáveis do mercado mexicano. O sucesso de Compartamos (medido aqui pelo crescimento de sua carteira e por sua rentabilidade) tem sido objeto de fortes críticas por parte da comunidade mais tradicional das microfinanças, a exemplo das críticas feitas pelo Sr. Mohamed Yunus, do já mencionado Grameen Bank. Os críticos de Compartamos, comparam a Instituição a agiotas e alegam que a mesma perdeu sua missão original de combate à pobreza e passou a explorar os pobres.
As críticas feitas a Compartamos foram formalmente respondidas por seus principais executivos (Carlos Danel e Carlos Labarthe), em carta publicada recentemente na prestigiosa revista The Economist. Mas o que de fato está por traz dessas críticas? O que significa exatamente a expressão “comercialização das microfinanças”? Quem está com a razão?
A expressão não é nova. Ela surge, na verdade, em meados da década de 1990 e se refere essencialmente a um movimento que naquele momento começava a se manifestar: as microfinanças estavam se tornando mais comerciais. De forma objetiva: instituições financeiras com fins lucrativos passaram a se interessar por esse segmento de mercado; e organizações não governamentais passaram se transformaram em instituições reguladas com o objetivo de viabilizar o crescimento de suas carteiras de crédito e de ampliar o seu portfólio de produtos. Enfim, um conjunto de acontecimentos que somados resultavam num “novo” segmento microfinanceiro, orientado não mais apenas por uma questão de missão, mas também – e em alguns casos, principalmente – por uma questão comercial, de lucro. Esse movimento permitiu um significativo crescimento da oferta de serviços financeiros para populações de baixa renda, mas, ao mesmo tempo, fez com que muitas instituições perdessem parte do seu caráter de desenvolvimento, de sua missão original.
No início desse debate, em fins da década de 1990, sra. Maria Otero (ACCION International) escreveu um interessante artigo – Bringing development back into microfinance – tratando exatamente dessa complexa questão. A autora defende a importância de se encontrar o equilíbrio entre os objetivos essenciais de desenvolvimento e combate à pobreza (missão) com os objetivos de sustentabilidade das operações (comercialização). Segundo Otero esse equilíbrio se estabelece mais facilmente na medida em que três elementos fundamentais se fazem presentes: (i) compromisso em servir os pobres; (ii) compromisso em estruturar operações e instituições permanentes; (iii) compromisso em buscar maior integração com o sistema financeiro tradicional, como forma de permitir ampliar o nível de serviço aos pobres.
O que se verifica na prática é que esse equilíbrio é de difícil manutenção e a questão do trade off entre missão e comercialização continuará fazendo parte dos debates sobre o futuro das microfinanças.
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